• Você sabia que mais de 712 casos de jurisprudência falsa gerada por IA já foram identificados em tribunais ao redor do mundo?
  • Que 55% dos advogados brasileiros já usam IA no dia a dia, mas muitos não sabem dos riscos?
  • Que a multa por litigância de má-fé pode chegar a 10% do valor da causa - e ainda gerar processo disciplinar na OAB?

A inteligência artificial chegou de vez na advocacia brasileira. Mais da metade dos advogados do país já usa alguma ferramenta de IA generativa, segundo pesquisa da OAB-SP em parceria com Jusbrasil, Trybe e ITS-Rio. Mas junto com a produtividade, veio um problema sério: advogados estão sendo multados por apresentar jurisprudência que não existe, fabricada por ferramentas como o ChatGPT.

Neste artigo, reunimos os casos reais mais recentes, os dados que você precisa conhecer, as regras da OAB e do CNJ, e um guia prático para usar IA no seu escritório sem colocar sua reputação - e seu bolso - em risco.

Leia também: Golpe do falso advogado: estratégias de proteção e gestão de riscos para escritórios em 2026

O que está acontecendo: casos reais de multas por IA

Os casos estão se multiplicando. Não são situações hipotéticas - são decisões publicadas, com multas aplicadas e ofícios encaminhados à OAB. Veja os mais relevantes:

Caso TRT-2 (São Paulo) - fevereiro de 2026

O caso mais recente e emblemático. A 6ª Turma do TRT da 2ª Região condenou uma empresa ao pagamento de multa de 5% sobre o valor da causa por litigância de má-fé, após o advogado admitir o uso de IA generativa para elaborar as razões de recurso. A peça continha precedentes judiciais que simplesmente não existiam.

Quando confrontado, o advogado tentou transferir a culpa para o “corpo de estagiários” do escritório e pediu que as citações fossem consideradas como “jurisprudência fictícia”. O relator, juiz Fernando Cesar Teixeira França, rejeitou a justificativa: “a postulação em juízo é ato privativo do advogado, que também é o responsável por seu conteúdo”.

Resultado: multa + ofício à OAB-SP para apuração de infração disciplinar.

Fonte: Conjur, 16/02/2026 - Processo 1001128-84.2024.5.02.0044

Caso TJ-SC - fevereiro de 2025

A 6ª Câmara de Direito Civil do TJ-SC aplicou multa de 10% sobre o valor da causa após identificar jurisprudência e doutrina inventadas na defesa. O advogado alegou “uso inadvertido” do ChatGPT. O relator destacou que “o surgimento de novas tecnologias de Inteligência Artificial exige que os operadores a utilizem com cautela e parcimônia”.

Fonte: Conjur, 20/02/2025

Caso TRT-12 (Santa Catarina) - 2025

Uma advogada apresentou petição inicial recheada de decisões, citação doutrinária e até nome de magistrado inexistente - tudo aparentemente gerado por IA. A trabalhadora que representava foi multada em R$ 3.700.

Fonte: Portal TRT-12

Caso TRT-MG - outubro de 2025

A 9ª Turma do TRT de Minas Gerais manteve condenação por litigância de má-fé após advogado citar uma súmula falsa do TST, gerada por IA, para contestar laudo pericial. Multa de R$ 1.200. O desembargador Weber Leite de Magalhães Pinto Filho foi direto: “a utilização de ferramentas de IA não afasta a responsabilidade pelos termos apresentados”.

Fonte: Carta Capital, 27/10/2025

Caso TJ-GO - janeiro de 2026

Uma juíza de Goiás constatou erros graves em petição inicial feita por IA e advertiu o advogado por litigância de má-fé, citando expressamente a violação à Recomendação nº 1/2024 do CFOAB. Nas palavras da magistrada: “não há como conferir validade a argumentação potencialmente criada por IA sem respaldo na realidade jurídica”.

Fonte: Conjur, 27/01/2026 - Processo 5050924-97.2026.8.09.0128

O problema não é só brasileiro: dados globais

O pesquisador Damien Charlotin, da HEC Paris, mantém um banco de dados que rastreia casos de “alucinação” de IA em tribunais ao redor do mundo. Os números são alarmantes:

Ano Casos identificados
2023 Primeiros casos (incluindo o famoso caso Steven Schwartz em Nova York)
2024 36 casos documentados
2025 (1º semestre) 48 casos
Total acumulado (dez/2025) 712+ casos em todo o mundo

O caso que inaugurou o debate global foi o do advogado nova-iorquino Steven Schwartz, em 2023. Ele usou o ChatGPT para pesquisa jurídica e apresentou uma petição com seis casos fictícios. O juiz classificou a conduta como “um ato de má-fé sem precedentes” e aplicou multa de US$ 5.000.

Fontes: Damien Charlotin - AI Hallucination Cases Database CNN Brasil

Por que a IA inventa jurisprudência?

Ferramentas de IA generativa como ChatGPT, Gemini e Copilot funcionam prevendo a próxima palavra mais provável em uma sequência. Elas não pesquisam bancos de dados jurídicos reais. Quando você pede “encontre jurisprudência sobre X”, a IA pode:

  • Inventar números de acórdãos que parecem reais mas não existem
  • Misturar informações de diferentes decisões em uma só
  • Criar nomes de relatores fictícios
  • Fabricar súmulas que nunca foram editadas
  • Citar leis revogadas como se estivessem vigentes

Esse fenômeno é chamado de “alucinação” (hallucination) e é uma limitação técnica conhecida dessas ferramentas. A IA não “sabe” que está inventando - ela simplesmente gera texto que parece correto.

O que dizem a OAB e o CNJ

Recomendação nº 1/2024 do CFOAB

Em novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou a Recomendação nº 1/2024, que estabelece diretrizes para o uso de IA na advocacia. Os principais pontos:

  1. Responsabilidade integral do advogado: todo conteúdo gerado ou auxiliado por IA continua sendo de responsabilidade do advogado. Não é possível transferir culpa para a ferramenta.
  2. Supervisão humana obrigatória: toda informação gerada por IA deve ser verificada e validada antes de ser usada em peças processuais.
  3. Sigilo profissional: cuidado extremo ao inserir dados de clientes em ferramentas de IA, especialmente as baseadas em nuvem.
  4. Transparência com o cliente: o advogado deve informar quando utiliza IA no atendimento ou na produção de trabalho jurídico.
  5. Capacitação contínua: advogados devem se manter atualizados sobre riscos e boas práticas no uso de IA.

A Recomendação não tem força de lei, mas já está sendo citada por juízes como parâmetro para avaliar conduta profissional - como vimos nos casos do TRT-2 e do TJ-GO.

Resolução CNJ nº 615/2025

Em março de 2025, o CNJ aprovou a Resolução nº 615, que regulamenta o uso de IA no Poder Judiciário. Embora direcionada aos tribunais, ela estabelece princípios que impactam toda a prática jurídica:

  • Transparência algorítmica
  • Supervisão humana em decisões assistidas por IA
  • Proteção de dados e privacidade
  • Não discriminação e mitigação de vieses

A resolução foi aprovada por unanimidade e contou com participação da OAB na sua elaboração.

Fonte: Portal CNJ

Enquanto pune o mau uso, a OAB também está incentivando o uso responsável. Em fevereiro de 2026, a OAB-RJ firmou convênio com uma plataforma de IA jurídica especializada, reconhecendo que a tecnologia pode ser aliada - desde que usada corretamente.

Fonte: OAB-RJ

Para um panorama completo de ferramentas, aplicações e custos de IA na advocacia, veja o guia de IA para advogados.

Como usar IA no escritório sem riscos: guia prático

A IA não é o inimigo. O problema é o uso sem supervisão. Veja como aproveitar os benefícios sem colocar sua carreira em risco:

✅ O que a IA faz bem (e você pode usar com confiança)

  • Resumir documentos longos (contratos, petições, laudos)
  • Redigir rascunhos iniciais de peças - que você vai revisar
  • Organizar argumentos e estruturar teses
  • Gerar modelos de comunicação com clientes (mensagens, e-mails)
  • Transcrever áudios de reuniões e atendimentos
  • Qualificar leads com perguntas automáticas no WhatsApp

❌ O que a IA NÃO faz bem (e exige verificação rigorosa)

  • Pesquisa jurisprudencial - sempre confira em bases oficiais (JusBrasil, tribunais, Planalto)
  • Citação de leis e súmulas - verifique número, vigência e redação
  • Nomes de magistrados e relatores - confirme no site do tribunal
  • Dados estatísticos - busque a fonte primária
  • Cálculos processuais - use ferramentas específicas

📋 Checklist: antes de protocolar qualquer peça assistida por IA

  1. ☐ Verifiquei cada citação jurisprudencial em base oficial
  2. ☐ Confirmei que as leis citadas estão vigentes
  3. ☐ Chequei nomes de magistrados e relatores
  4. ☐ Revisei a argumentação jurídica com meu conhecimento técnico
  5. ☐ Não inseri dados sensíveis de clientes em ferramenta de IA pública
  6. ☐ Retirei qualquer linguagem genérica que não se aplica ao caso
  7. ☐ Li a peça inteira como se tivesse sido escrita por um estagiário de primeiro ano

Dica de ouro: use IA especializada, não genérica

Ferramentas de IA generalistas (ChatGPT, Gemini, Copilot) são úteis para rascunhos e brainstorming, mas não foram feitas para pesquisa jurídica. Se você precisa de jurisprudência confiável, prefira:

  • Plataformas jurídicas com IA que consultam bases reais de tribunais
  • Ferramentas de busca jurisprudencial com verificação integrada
  • Soluções especializadas que conectam IA a bases de dados oficiais

E para o atendimento ao cliente? Automatize o que é repetitivo, mantenha o humano no que é estratégico. Ferramentas como o Chat Jurídico permitem usar IA para qualificar leads e organizar atendimentos no WhatsApp - sem os riscos de fabricação de conteúdo jurídico, porque a IA opera no atendimento, não na produção de peças processuais.

O futuro: regulamentação vai apertar

A tendência é clara: a regulamentação do uso de IA na advocacia vai ficar mais rigorosa, não menos. Sinais:

  • O PL 2338/2023 (Marco Legal da IA) segue em tramitação no Congresso e deve estabelecer obrigações de transparência e responsabilidade
  • Tribunais estão criando jurisprudência própria sobre o tema, com multas cada vez mais severas
  • A OAB já sinalizou que pode transformar a Recomendação 1/2024 em norma vinculante
  • O CNJ continua atualizando suas diretrizes (a Resolução 615 substituiu a 332/2020)

Quem se adaptar agora vai estar na frente. Quem ignorar pode pagar caro - literalmente.

FAQ

Posso usar ChatGPT para redigir petições?

Sim, como ferramenta auxiliar para rascunhos e estruturação. Mas nunca protocole uma peça sem revisar cada informação, especialmente citações de jurisprudência, leis e súmulas. A responsabilidade é sempre do advogado.

O que acontece se eu apresentar jurisprudência falsa gerada por IA?

Você pode ser condenado por litigância de má-fé (multa de 1% a 10% do valor da causa), receber ofício à OAB para processo disciplinar, e ter sua reputação profissional seriamente prejudicada. Alegar que “a IA errou” não exclui sua responsabilidade.

A Recomendação da OAB sobre IA é obrigatória?

A Recomendação nº 1/2024 tem caráter orientativo, não é lei. Porém, juízes já a citam como parâmetro para avaliar conduta profissional. Na prática, descumpri-la pode agravar sua responsabilização em caso de problemas.

Posso inserir dados de clientes em ferramentas de IA?

Com extremo cuidado. Prefira ferramentas que não usem seus dados para treinamento, leia a política de privacidade, e anonimize informações sensíveis antes de inserir em qualquer plataforma. A LGPD e o sigilo profissional se aplicam integralmente.

Qual a diferença entre IA para petições e IA para atendimento?

IA para petições gera conteúdo jurídico (argumentos, citações) - e é aqui que mora o risco de alucinação. IA para atendimento (como qualificação de leads no WhatsApp) opera com fluxos estruturados e informações controladas, com risco muito menor.

Referências

  1. Conjur (16/02/2026) - Uso de jurisprudência criada por IA gera multa por má-fé e ofício à OAB
  2. Conjur (20/02/2025) - TJ-SC aplica multa por recurso com precedentes inventados por IA
  3. Portal TRT-12 - Autora de ação é multada após advogada inventar jurisprudência e desembargador
  4. Carta Capital (27/10/2025) - Justiça aplica multa após advogado usar IA e citar súmula inexistente
  5. Conjur (27/01/2026) - Juíza determina que advogado corrija erros de petição feita por IA
  6. Valor Econômico (25/03/2025) - Mais de 50% dos advogados já adota IA, aponta estudo
  7. Damien Charlotin - AI Hallucination Cases Database
  8. CNN Brasil (29/05/2023) - Advogado pede desculpas por falsas citações judiciais criadas pelo ChatGPT
  9. Portal CNJ (20/02/2025) - CNJ aprova resolução regulamentando o uso da IA no Poder Judiciário
  10. OAB-RJ (fev/2026) - OAB-RJ firma convênio com ferramenta de IA jurídica
  11. Recomendação nº 1/2024 do CFOAB - Diretrizes para uso de IA na advocacia
  12. Resolução CNJ nº 615/2025 - Texto integral

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