Todo artigo sobre API do DJEN termina no mesmo lugar: um curl que devolve JSON e uma frase de efeito sobre automação.

No escritório, é aí que o trabalho começa.

A publicação saiu. O prazo está correndo. E o cliente, que não lê diário oficial, manda a mensagem de sempre no WhatsApp: “doutor, saiu alguma coisa?”

Este guia mostra como fechar essa volta: a intimação de um lado, o Claude lendo o processo via MCP do outro, e a resposta chegando no mesmo número em que o cliente já fala com você.

O que a API do DJEN entrega, e onde ela para

A consulta pública de comunicações do CNJ devolve o texto da publicação e as datas. É um GET aberto, sem chave, com filtro por OAB, processo, tribunal e janela de datas 1.

Ela entrega o ato. Ela não faz mais nada.

Não avisa quando sai publicação nova, porque é consulta e não notificação. Não traduz “expeça-se mandado” para linguagem de cliente. Não sabe quem é o cliente. Não abre conversa.

A API resolve a captura. O escritório perde o cliente na etapa seguinte, que é comunicar.

💡 Leia também: API do DJEN: consulta oficial do CNJ e como integrar, com endpoint, limites de taxa, geo-bloqueio e o teto de 50 itens por página.

As duas camadas que ninguém separa

Aqui está o erro que eu vejo repetido em quase toda conversa sobre “automatizar intimação”.

O escritório trata publicação, processo e conversa como se fossem um sistema só. Não são. São três, e cada uma tem dono diferente:

  • DJEN: a publicação oficial e a data de disponibilização. É o que dispara prazo, nos termos do art. 224, §§ 2º e 3º, do CPC 2.
  • Software jurídico: a capa do processo, o prazo interno controlado, a peça.
  • Conversa: onde o cliente pergunta de verdade.

O Chat Jurídico vive na terceira camada. Ele não consulta o DJEN, e eu prefiro dizer isso com todas as letras a vender integração que não existe. O que ele faz é ler o processo já cadastrado no escritório e a base pública do CNJ, e responder o cliente com esse dado.

Quem captura a publicação continua sendo o DJEN, direto ou pelo software jurídico que você já usa.

Se as três camadas não se falam, o resultado é o de sempre: alguém abre o sistema jurídico, copia o último andamento, cola no WhatsApp e traduz na mão. Dez vezes por dia.

As ferramentas que o Claude enxerga via MCP

O MCP é o protocolo que deixa o Claude usar ferramentas do seu sistema em vez de adivinhar. Ligado ao Chat Jurídico, ele passa a ter acesso ao contexto processual do escritório.

Estas são as portas que importam para acompanhamento:

Ferramenta O que faz Fonte
processos_do_contato Lista os processos vinculados ao cliente com as últimas movimentações de cada um. Aceita o id da conversa ou do contato. Escritório
consultar_processo_escritorio Um processo por CNJ: partes, tribunal, classe, assunto, situação, valor e movimentações. Escritório
movimentacoes_processo Andamentos de um processo, mais recentes primeiro, com filtro desde. Escritório
status_monitoramento_processo Se o processo está monitorado, a frequência e o campo ultima_notificacao_em. Escritório
consultar_processo_publico Metadados completos por CNJ na base pública DataJud, incluindo o sistema de origem (PJe, eproc, eSAJ, Projudi). DataJud
buscar_jurisprudencia Julgados com ementa em DataJud, LexML, STJ SCON e TJPR. Público

Repare na coluna da direita, porque ela é a parte que mais confunde.

processos_do_contato não consulta base pública. Ela usa o que já está cadastrado no escritório. Se o processo não foi vinculado ao contato, a IA não inventa: ela não acha.

consultar_processo_publico bate no DataJud e devolve capa e movimentação, mas não devolve texto de sentença nem de acórdão. Se alguém prometeu que a IA lê a decisão inteira por essa porta, prometeu errado.

O fluxo completo, da publicação à mensagem

Na prática, o caminho tem cinco passos.

1. A publicação cai no DJEN. O monitor captura, seja pela API pública, seja pelo software jurídico que faz essa varredura para você. As duas datas ficam registradas, disponibilização e publicação, porque colapsar isso numa coluna só é como escritório perde prazo.

2. O processo é atualizado no escritório. A movimentação nova entra no cadastro e fica vinculada ao contato certo.

3. O cliente pergunta. Ou o cliente nem pergunta e a automação toma a iniciativa. As duas rotas funcionam.

4. O Claude lê o contexto. Pelo id da conversa, processos_do_contato devolve os processos daquele cliente com as últimas movimentações. O padrão traz 5 por processo, o suficiente para responder sem despejar o histórico inteiro na cara de quem perguntou.

5. A resposta sai no WhatsApp, em português de cliente, no mesmo número, com histórico salvo.

O passo 4 é o que muda o jogo. Sem ele, o que sobra? A IA responde “vou verificar com o advogado responsável”, que é uma forma educada de não responder nada.

Quer ver esse encaixe com um software jurídico específico? O tutorial de integração ADVBox com MCP mostra a sincronia de contatos e processos passo a passo.

Os dois campos que evitam transformar automação em spam

Esta é a parte técnica que quase ninguém pensa antes, e que estraga a experiência quando falta.

Você ligou o aviso automático de movimentação. Ótimo. E se o job rodar de novo em duas horas? O cliente recebe a mesma novidade outra vez. Se rodar de hora em hora durante o dia, ele recebe doze vezes o mesmo aviso e desliga a notificação do escritório para sempre.

A proteção mora em dois lugares:

O parâmetro desde em movimentacoes_processo aceita uma data ISO e traz só o que entrou depois dela. É o filtro que existe exatamente para automação que avisa uma vez.

E ultima_notificacao_em, devolvido por status_monitoramento_processo, guarda quando o último aviso saiu para aquele processo.

A regra fica simples: buscar movimentações desde a última notificação, e só mandar mensagem se voltar alguma coisa.

Nos meus testes com uma carteira de acompanhamento, eu subi o job de hora em hora achando que estava sendo diligente. Numa tarde só, três clientes receberam o mesmo aviso quatro vezes. Um deles respondeu pedindo para parar, e ele estava certo.

Eu recomendo montar essa checagem antes de ligar qualquer disparo em carteira grande. Um escritório de família com 400 processos ativos que dispara sem esse controle não está automatizando comunicação. Está construindo uma máquina de irritar cliente.

O que a IA pode dizer, e onde ela precisa parar

Informar movimentação é comunicação. Dizer o que o cliente deve fazer com aquilo é orientação jurídica, e isso é do advogado.

A fronteira, na prática, é esta:

  • Pode: “seu processo teve movimentação em 18/08: o juiz determinou a intimação da parte contrária. O responsável pelo caso já foi avisado.”
  • Não pode: “isso significa que você vai ganhar” ou “então o seu prazo acaba na sexta”.

Prazo tem regra própria e calendário forense. Uma leitura apressada do art. 224 do CPC já custou dias úteis a muito escritório, e explicamos essa linha do tempo inteira no guia sobre DJEN, prazo e intimações.

Três cuidados que eu não pularia:

Escalar para humano quando a pergunta muda de natureza. Andamento é informação. “E agora, doutor?” é consulta. O gatilho de transferência precisa existir.

Registrar tudo. A conversa fica no histórico do contato, não no celular pessoal de quem respondeu. Isso vale para LGPD e vale para o dia em que alguém perguntar o que foi dito ao cliente.

Nunca deixar a IA preencher lacuna. Se o processo não está cadastrado, a resposta correta é dizer que vai verificar, não improvisar um andamento plausível. Modelo de linguagem sem dado inventa com confiança, e no jurídico isso já virou multa.

A dinâmica da mensagem em si, com tom e roteiro, está no post Oi, como está meu processo?.

Por onde eu começaria

Se o escritório ainda não tem nada disso ligado, a ordem que dá resultado mais rápido é esta.

Primeiro, garanta que os processos estejam vinculados aos contatos certos. Parece básico. É o item que trava 90% das implantações, porque o cadastro veio de planilha e o CPF do cliente não bate com o número de WhatsApp que ele usa.

Na minha experiência com implantações, é aqui que se perde mais tempo. Já vi uma parar duas semanas exatamente nesse ponto. A IA estava configurada, o MCP respondia, e mesmo assim o cliente ouvia “não localizei processo vinculado ao seu cadastro”. O problema não era a IA. Eram 300 contatos importados com o telefone no formato antigo, sem o nono dígito.

Depois, ligue a consulta antes do disparo. Deixe a IA responder quem pergunta, sem ainda mandar aviso proativo. Duas semanas assim mostram o volume real de perguntas de acompanhamento e afinam o texto da resposta.

Só então ligue o aviso automático, com desde e ultima_notificacao_em no lugar.

E mantenha o DJEN onde ele é bom: capturando a publicação e marcando a data que dispara o prazo. Essa parte não terceirize para um crawler improvisado numa tarde.

Perguntas frequentes

O Chat Jurídico consulta o DJEN? Não diretamente. As ferramentas de MCP leem os processos cadastrados no escritório e a base pública do CNJ (DataJud). A captura da publicação oficial continua sendo do DJEN, via API própria ou via o software jurídico que já monitora.

Como o Claude responde sobre o andamento? Pela ferramenta processos_do_contato, que recebe o id da conversa ou do contato e devolve os processos daquele cliente com as últimas movimentações. Sem ninguém abrir o sistema jurídico.

Como não avisar duas vezes a mesma movimentação? Com desde em movimentacoes_processo e ultima_notificacao_em em status_monitoramento_processo. A automação compara os dois antes de mandar mensagem.

A IA pode informar o prazo ao cliente? Informar movimentação, sim. Dizer o que fazer com o prazo é orientação jurídica e cabe ao advogado. O fluxo seguro informa, registra e escala.

E se o processo não estiver cadastrado? A ferramenta não acha e a IA não deve inventar. O caminho é assumir a verificação e transferir para o responsável.

Referências

1 Comunicações Processuais (CNJ) e Resolução CNJ nº 455/2022.

2 Código de Processo Civil, art. 224, §§ 2º e 3º.

3 API Pública do DataJud (CNJ), base consultada pela ferramenta de processo público.

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